Que Haja Sempre Arrojo

ideoma

De onde partem os rios, inicia-se a busca
Afinal as despedidas são sempre o quebrar do conforto
E restam somente as súplicas de quem sobeja
Nos ouvidos de quem se lança nesse desafio
Não sabem, nem uns nem outros,
Que este zarpar é já um vaticínio de morte
Desde que se extingue o calor do adeus
E se soltam as mãos que prometiam permanecer unidas
O destino começa a se reescrever
Pois, por mais que se queira, o futuro nunca se suspende
Esse hiato temporal entre a partida e o regresso
Será preenchido pelo que a realidade escolher
Mas deixa partir os aventureiros que se fixam no horizonte
Retê-los nunca será uma opção viável para o seu crescimento
Há aprendizagens que não se ensinam, vivem-se
Pois só chega a compreender o lado negro do calor que há no fogo
Os incautos que se atrevem a deixar-se queimar
Essa partida é sempre feita com a ambição do regresso
Afinal todos temos a nossa Ítaca
Mas esse retorno é sempre uma odisseia repleta de desafios
São tantas as sereias capazes de os encantar e desnortear
São traiçoeiras as paragens aonde germina a vontade de criar raízes
Mas em nenhuma dessas paragens o sentimento é de inteireza
Vão os aventureiros perdendo partes de quem eram por onde passam
E enxertando em si tanto do que fortuitamente encontram
Sem nunca saber se desses enxertos desabrocham flores ou dores
Esse é afinal o drama do cidadão que deambula por aí
Tem ao seu alcance tudo o que o mundo promete,
Se aceitar deixar escapar o seu lar por entre os seus dedos
E quem no fim regressa a casa não é mais quem de lá partiu
Morreu quem eles ontem eram mas, com sorte,
Sobreviverá a vontade de continuamente se reinventar
E ir fazendo ressuscitar, a cada dia, uma versão mais sábia de si próprios
Que sabe enfim que há tanto arrojo em ficar como em partir