Inconfidências

ideoma

Foste oração
Quando se tinha perdido a fé
E foste chamamento
Num tempo peculiar
Em que tudo era suposto ser silêncio
E eu era invadido pela dúvida
O mundo esse fechava-se sobre si próprio
E tornava-se monótono
Tudo nele era pálido e cru
Tudo nele era temor e epílogo
Na incerteza do que aí se anunciava
Não havia mais planos
Não havia mais certezas
Não havia mais idas e vindas
E eu era também espera
À margem do rio da vida
Que por uma vez parecia igualmente suspenso
E foi nesta pausa que te revelaste
Sem clamor
Porque tudo em ti era aceitação
Sem pretensões
Porque sabias que tudo se eclipsa
Sem promessas de salvação
Porque também tinhas sido perdição
E o que tinhas então para oferecer?
Poesia em tempos de horror
Lucidez entre a reinante loucura
Paciência para além da impetuosidade
Amor apesar de todas as demonstrações de ódio
Perdoa-me as inconfidências
Sei que preferias que calasse estas palavras
Aspiras mais ao conteúdo do que a forma
Interessa-te mais a obra que o autor
Mas és tanto em tão pouco
Para que eu consiga guardar tudo isso
Apenas para mim